sexta-feira, 6 de março de 2015

07 DE MARÇO - 588º ANIVERSÁRIO DA APARIÇÃO DE NOSSA SENHORA NO MONTE BÉRICO - VINCENZA - 1426 - FILME VOZES DO CÉU 9


 

A Aparição da Virgem a Vincenza Pasini, luneta pintada a óleo na parede da Basílica por Rocco Pittaco, em 1883 FILME: VOZES DO CÉU 9 - RELATA HISTÓRIA DE TRÊS APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA – MONTE BÉRICO - VINCENZA (ITÁLIA) DE 1426 a 1428 / EM GENOVA (ITÁLIA) 1490 E EM KNOCK (IRLANDA) 1879 (NOSSA SENHORA/SÃO JOSÉ E SÃO JOÃO EVANGELISTA)


Aparição de Nossa Senhora em Vicenza

Itália - 1426.


Onde: Na Itália.

Quando: Em 1426.

A quem: a uma senhora.

Os fatos: Essa aparição de nossa Mãe também é conhecida como de Monte Bérico.

Na realidade essa manifestação da Santíssima Virgem aconteceu em dois momentos diferentes.

O primeiro ocorreu em 1426, na cidade de Vicenza, que se encontrava a alarmada por uma temível epidemia que ceifava a vida de muitas pessoas. Nesse ambiente de pânico e insegurança, uma senhora, devota da Virgem Santíssima, rezava, no alto do Monte Bérico, em frente a uma Cruz, clamando sua misericórdia e amorosa proteção.

De forma inesperada eis que surge adiante dela a Rainha do Céu e da terra relevando a sua filha que a devastadora epidemia iria em pouco tempo, desaparecer. Porém, a Mãe de Deus solicitou que naquele lugar fosse erguida uma Igreja para que todos pudessem lembrar do socorro recebido naquela hora aflitiva.

Como normalmente acontece, e isso é lamentável, facilmente ajoelhados e rezamos para pedir, porém, depois de atendidos, raramente lembramos de agradecer.

E não foi diferente o que ocorreu com o povo de Vicenza, pois após passaram-se dois anos ainda não tinham cumprido o pedido de nossa Mãe.

Então, em 1428, novamente Nossa Senhora apareceu a sua filha, para reforçar o pedido anterior da construção da Igreja.

Finalmente, a população que tinha recebido tão grande graça, resolve cumprir a solicitação da Santíssima Virgem, e constrói a Igreja.

A partir desse momento começam as romarias, peregrinações e os milagres, inclusive com muitas curas de enfermos.

Atualmente, continuam a deslocar-se para lá em grande número de devotos em busca da Mãe do Perpétuo Socorro.

A imagem de Nossa Senhora do santuário do Monte Berico: a tradição a atribui à mão de Nicolau de Veneza. Foi esculpida entre 1428 e 1430 e depositada sobre o altar-mor desde as origens do santuário. Foi coroada em 25 de agosto de 1900 pelo patriarca de Veneza Giuseppe Sarto, futuro papa São Pio X. Depois de uma série de tentativas de furto, a cabeça da imagem passou a ostentar uma cópia da coroa original; acima, o altar-mor e o nicho que abriga a imagem de Nossa Senhora

Maria extingue a peste no Monte Berico (I)
Um precioso manuscrito, conservado na biblioteca Bertoliana de Vicence, em Veneza, sob a cota Código 1430, descreve detalhada e fartamente os fatos que aconteceram nesta cidade do norte da Itália, "sacudida e dizimada" pela grave epidemia de peste entre 1426 e 1430. No dia 7 de março de 1426, uma senhora de 70 anos, Madame Vincenza Parisi, viu no alto da colina do chamado Monte Berico, uma mulher cuja aparência era a de magnífica rainha, vestida com roupas mais resplandecentes que o sol, envolvida por mil perfumes. Diante de tanta beleza, suas forças a abandonaram e ela caiu por terra. Então, a bela senhora a levantou e disse-lhe: "Eu sou a Virgem Maria, a Mãe de Jesus Cristo, morto na Cruz para a salvação dos homens. Peço-te que, em meu nome, vás dizer aos habitantes de Vicence, que, se eles querem recuperar a saúde, devem construir uma igreja em minha honra, neste local, pois sem que isto se realize, a peste não cessará." Vincenza perguntou: "Mas o povo não acreditará em mim. E, ó Mãe gloriosa, onde encontrar dinheiro para fazer estas coisas?". "Tu insistirás para que o povo atenda este meu desejo", respondeu a Virgem, "senão, a peste não cessará jamais, e enquanto as pessoas não obedecerem, meu Filho estará triste com elas". E continuou: "Como prova do que estou a dizer, que eles cavem um buraco nesta rocha viva e árida e, dela jorrará água; assim que a construção da igreja tiver início, dinheiro não faltará." Com um ramo de oliveira a Virgem Santa marcou a terra, assinalando o lugar onde a igreja deveria ser construída, exatamente no local onde se encontra hoje o altar-mor do santuário. "Todos os que visitarem esta igreja com devoção", acrescentou, "por ocasião das festas a mim dedicadas, e no primeiro domingo de cada mês, receberão abundantes graças, a misericórdia de Deus e a bênção de minhas mãos maternais."

Vincenza desceu até a cidade, referindo o ocorrido a todos, mas ninguém acreditou nela e o bispo, Dom Pietro Emiliani, mandou que ela se retirasse, achando que ela havia perdido o juízo.

O MONTE BERICO SITUA-SE AO SUL DA CIDADE DE VICENZA E TEM UMA ALTURA DE QUASE 1000 METROS.
PERTENCE A UM REMOTO SISTEMA DE MONTANHAS DE ORIGEM VULCÂNICA QUE SE ESTENDE POR MAIS DE 30 QUILÔMETROS.
O NOME DERIVA-SE DE UMA PALAVRA DIALETAL "BERG" QUE SIGNIFICA MONTE, GRADUALMENTE TRASFORMADA PARA "BERICE".
SEGUNDO UMA ANTIGA TRADIÇÃO, NA MANHÃ DE 7 DE MARÇO DE 1426, UMA ANCIÃ, CHAMADA VICENZA PASINI, ENQUANTO PROCURAVA O MARIDO, TEVE UMA VISÃO DE UMA FIGURA FULGURANTE QUE LHE DISSE:
“EU SOU A VIRGEM MARIA, MÃE E JESUS CRISTO, CRUCIFICADO PELA SALVAÇÃO DA HUMANIDADE. PEÇO-TE QUE VÁ DIZER AO POVO VICENZIANO PARA CONSTRUIR NESTE LOCAL UMA IGREJA EM MINHA HONRA".
A COMUNA DE VICENZA ENTRE 1430 E 31 PROMOVE UMA INVESTIGAÇÃO OFICIAL SOBRE O APARECIMENTO DA VIRGEM MARIA; NOS ANOS QUE PRECEDERAM A APARIÇÃO UMA GRAVE PESTE TOMOU CONTA DA REGIÃO E APÓS OS FATOS NARRADOS POR VICENZA TEVE MIRACULOSO EFEITO DE RECUO E EXTINÇÃO DA DOENÇA. DESDE A PRIMEIRA PEDRA DO SANTUÁRIO, FATOS PRODIGIOSOS SE DERAM NO LUGAR, DESCOBERTA DE FONTES DE ÁGUA, CURAS MILAGROSAS, ETC.
TUDO ISSO ANTES DA SEGUNDA APARIÇÃO EM 1 DE AGOSTO DE 1428, EMBORA MUITOS NÃO ACREDITASSEM EM VICENZA QUE CHEGOU A SER PRESA COMO LOUCA.
DEPOIS DA SEGUNDA VISÃO, A VENERAÇÃO CRESCEU E VICENZA MORREU SENDO ENTERRADA NA IGREJA E DEPOIS TRANSFERIDA PARA O SANTUÁRIO CONSTRUÍDO EM 1810. ESTANDO HOJE SEPULTA NO CLAUSTRO DO CONVENTO.
***

“Um farol de salvação e de refúgio nas tempestades da vida”


O santuário de Nossa Senhora do Monte Berico é um dos lugares de devoção mariana mais importantes da Europa: Nossa Senhora apareceu ali duas vezes, em 1426 e 1428, a uma senhora idosa de Vicenza durante a terrível peste da primeira metade do século XV


de Pina Baglioni
Os pórticos que ligam a cidade de Vicenza ao santuário: a obra, finalizada em 7 de março de 1746 pelo arquiteto Francesco Muttoni, se desdobra por 700 metros e 150 arcadas, como o número de contas do Rosário. Estas foram repartidas em grupos de 10, simbolizando os 15 mistérios. Ao fundo, a fachada oriental do santuário
Os pórticos que ligam a cidade de Vicenza ao santuário: a obra, finalizada em 7 de março de 1746 pelo arquiteto Francesco Muttoni, se desdobra por 700 metros e 150 arcadas, como o número de contas do Rosário. Estas foram repartidas em grupos de 10, simbolizando os 15 mistérios. Ao fundo, a fachada oriental do santuário
Os habitantes de Vicenza, mas não apenas eles, levaram Nossa Senhora a sério: todo primeiro domingo do mês, sobem até aqui pelo menos trinta mil pessoas para pedir uma graça ou agradecer uma graça obtida, ou simplesmente para fazer uma visita à Virgem Maria. No final de cada missa – nove, todos os dias –, gasta-se mais de uma hora para que as pessoas consigam sair da igreja. Por pouco não precisamos empurrá-las para que vão embora”, brinca, satisfeito, o padre Alessandro Bertacco. Professor de línguas nos colégios de Vicenza durante trinta e oito anos, ao se aposentar tornou-se reitor do santuário de Nossa Se­nhora do Monte Berico. Decididamente, é um homem de sorte: existe um “problema” de abundância no Monte Berico. O que é uma grande alegria para ele e para sua Ordem, os Servos de Maria, que guardam o santuário ininterruptamente desde 1435. “Às vezes não sabemos a que santo recorrer para conseguir confessar toda esta gente. A média, no primeiro domingo do mês, é de vinte e duas mil confissões. Eu e meus companheiros da Ordem, vinte e cinco ao todo, mas apenas doze na ativa – pois os outros já estão idosos demais –, passamos até dez horas no confessionário. E o mais bonito de tudo é que a maior parte dos que vem pedir o sacramento são jovens, muitos jovens”. Tanto assim, que já em dezembro de 1972 foi preciso construir um edifício destinado apenas ao sacramento da penitência, bem ao lado da Basílica: duas grandes capelas, uma sobre a outra, com trinta confessionários, que vieram somar-se aos que já existiam dentro da Basílica. 
E ainda é pouco, se pensarmos no que ocorre todo dia 8 de setembro, festa da Natividade de Maria. O número de peregrinos quase dobra, estando presentes também autoridades civis e religiosas. A cidade de Vicenza, já na véspera da festa, fica inundada por milhares de pessoas. Muitas delas, vindo de cidades próximas, das regiões do Vêneto e da Lombardia, põem-se a caminho alguns dias antes, dividindo a pe­regrinação em etapas, para chegar a tempo da vigília e da “missa da aurora”, celebrada às 5h30, na manhã do dia 8. Muitos outros vêm da Bélgica, da França, da Inglaterra e da Alemanha. Às vezes até do Brasil e das Filipinas. “São imigrantes vênetos ligados para sempre a sua Mãe Celeste”, conta o padre Alessandro. “Um laço que é sustentado também graças a nossa revista mensal, La Madonna di Monte Berico, que já tem cem anos: milhares de assinantes, de todas as partes do mundo, nos escrevem para comunicar seus problemas e seu amor pela terra natal e por Nossa Senhora. E eu, que dirijo a revista, publico todos os meses alguma carta deles. Até já fui encontrá-los, sobretudo na Europa, para que entendam que o santuário e os Servos de Maria estão sempre a seu lado”. 
O primeiro domingo do mês e o dia 8 de setembro, festa da Natividade de Maria: em torno dessas duas datas, extremamente caras ao coração dos habitantes de Vicenza, se explica toda a história do santuário de Nossa Senhora do Monte Berico, o mais importante da região do Vêneto e um dos maiores locais de devoção mariana da Europa. 

Monte Berico, um gomo do paraíso 
“O lugar é muito ameno, elevado, iluminado pelos primeiros raios do sol nascente; à frente, um imenso panorama de campos férteis ponti­lhados de nobres palácios e vilarejos agradáveis. Na direção da mão esquerda, a vista chega até os vales distantes do Ástico, do Brenta, do Bassano, até Ásolo, com o majestoso complexo dos Alpes a suas cos­tas; na direção da mão direita, se estende até as colinas Eugânias, até Pádua e Veneza, que impera como uma rainha solitária nas lagunas. Parece que a Virgem escolheu este lugar para que o povo de Veneza pudesse vê-lo, e se dirigisse a Ela como a um farol de salvação e de refúgio nas tempestades da vida.” 
Hoje, subindo o monte que se eleva por cem metros, a sudoeste da cidade de Vicenza, experimentamos o mesmo cenário maravilhoso que o poeta e sacerdote Giacomo Zanella descreveu em seu Alla Madonna di Monte Berico, em 2 de agosto de 1875. Um cenário solene, que se distingue pelos setecentos metros de pórticos que, partindo da cidade, correm ininterruptamente até a fachada oriental do santuário. Construídos na segunda metade do século XVIII a partir do projeto do arquiteto Francesco Muttoni, para facilitar a subida dos pe­regrinos “ao monte”, articulam-se em 150 arcos, como o número de contas do rosário. E, a cada dez arcos, num patamar, pode-se contemplar na parede os afrescos de cada um dos 15 mistérios do rosário. Existe também um outro caminho, mais antigo, que leva até Nossa Senhora: é a subida das Escadinhas, com seus 192 degraus, introduzidos por um majestoso arco do triunfo com influências arquitetônicas evidentes do artista que assinou e revolucionou as feições de Vicenza: Andrea Palladio. 
A imagem de Nossa Senhora do santuário do Monte Berico: a tradição a atribui à mão de Nicolau de Veneza. Foi esculpida entre 1428 e 1430 e depositada sobre o altar-mor desde as origens do santuário. Foi coroada em 25 de agosto de 1900 pelo patriarca de Veneza Giuseppe Sarto, futuro papa São Pio X. Depois de uma série de tentativas de furto, a cabeça da imagem passou a ostentar uma cópia da coroa original; acima, o altar-mor e o nicho que abriga a imagem de Nossa Senhora
A imagem de Nossa Senhora do santuário do Monte Berico: a tradição a atribui à mão de Nicolau de Veneza. Foi esculpida entre 1428 e 1430 e depositada sobre o altar-mor desde as origens do santuário. Foi coroada em 25 de agosto de 1900 pelo patriarca de Veneza Giuseppe Sarto, futuro papa São Pio X. Depois de uma série de tentativas de furto, a cabeça da imagem passou a ostentar uma cópia da coroa original; acima, o altar-mor e o nicho que abriga a imagem de Nossa Senhora
Enfim, o Monte Berico é um gomo do paraíso. No centro do qual se recorta a silhueta inconfundível do santuário, onde barroco e gótico convivem: três fachadas barrocas, idênticas, em três de seus lados, e, no quarto, a oeste, a fachada gótica encostada à barroca. A fachada gótica lembra o santuário edificado depois das duas aparições de Nossa Senhora a uma se­nhora de Vicenza, em 7 de março de 1426 e 1º de agosto de 1428. Aqueles eram anos terríveis, anos de peste. Mas também muito bonitos, graças ao gesto de misericórdia dirigido pela Virgem Maria a Vicenza, uma cidade então reduzida ao extremo.

1404: a peste chega a Vicenza 
Um documento extremamente precioso, identificado como Códice 1430 e conservado na Biblioteca Bertoliana de Vicenza, conta com todos os detalhes os fatos que ocorreram na cidade de 1426 a 1430. É a principal fonte histórica, redigida por notários públicos em novembro de 1430, documentando o Processus formalmente instruído pela Communitas Vincentiae e pelo juiz do município, Giovanni de Porto. O motivo da instrução, solicitada pelas principais autoridades civis da cidade, é esclarecido pelo próprio documento já nas primeiras linhas: apresentar “a maravilhosa e estupenda construção da igreja da gloriosa Mãe de Deus, a Virgem Maria, no topo da montanha, dita ‘sacra’, e os milagres e outros fatos prodigiosos que lá em cima aconteceram”. Milagres e fatos prodigiosos que aconteceram depois de um período muito longo de sofrimentos, também amplamente documentado pelo Códice: “Do ano do Senhor de 1404 até o ano de 1428, esta infeliz cidade, com todo o seu território, foi sacudida e atormentada quase continuamente por pestes e doenças gravíssimas. Assim, esta província foi despojada de seu povo e de sua gente. Os habitantes morriam de doença ou, para fugir do mal, abandonavam suas casas durante anos, com pesados gastos e dificuldades”. 
Apesar de tudo, aquele 1404 se anunciava um ano propício: depois de uma série de tiranos – os se­nhores de Pádua, Cangrande della Scala e Gian Galeazzo Visconti – terem lutado dentro da cidade para conquistá-la, os cidadãos decidiram recorrer à proteção da República de Veneza. Em 28 de abril de 1404, por intermédio dos nobres cidadãos Gian Pietro Proti e Giacomo Thiene, os habitantes de Vicenza se entregaram espontaneamente à República de Veneza, recebendo, em troca, um amplo número de privilégios, tanto de natureza econômica quanto sob a forma de autonomia legislativa. Mas foi nesse mesmo período que a peste se espalhou pela cidade, deixando morte e devastação por onde passava. 
Outros documentos de arquivo revelam, por exemplo, que só restaram três monges no mosteiro beneditino dos Santos Félix e Fortunato; só nove monjas em Santo Tomás; dois camaldolenses; cinco carmelitas de São Tiago, em outubro de 1428, in pleno et generali capitulo. E o mesmo aconteceu aos outros mosteiros, o de São Lourenço, o de São Miguel e o de São Pedro. Enquanto isso, os habitantes de Vicenza imploravam e faziam penitência. Em vão. Parecia que o Céu havia se tornado surdo a qualquer invocação e que o Senhor os havia esquecido. 

“Eu sou a Virgem Maria, a Mãe de Cristo...” 
Naqueles anos terríveis, vivia em Vicenza uma senhora de quase setenta anos, Vincenza Pasini, que todas as manhãs subia ao Monte Berico para levar de comer a seu marido, mestre Francesco de Giovanni de Montemezzo, que, lá no alto, cultivava a vinha de seu pequeno campo, ainda que sua principal ocupação fosse a de marangone, lenhador. O idoso casal era originário de Sovizzo, um pequeno município a poucos quilômetros de Vicenza; tendo-se transferido alguns anos antes para a cidade, os dois moravam no bairro Berga, na encosta do Monte Berico, em frente da igreja de Todos os Santos. O Códice relata que dona Vincenza levava uma vida simples e honesta, devotada ao Senhor e a Sua Mãe Santíssima, pela qual alimentava uma devoção excepcional: seus dias eram ritmados por muita oração e boas obras; sua freqüência à igreja e às celebrações litúrgicas, e em especial sua caridade para com todos, faziam dela uma verdadeira cristã. 
Em 7 de março de 1426, hora quasi tertia – às 9 da manhã –, a senhora, como sempre, chegou ao topo da colina. Assim que chegou lá em cima, viu uma mulher na sua frente, como conta o Códice, “in forma speciosissime regine perfulgide”, nas feições de uma belíssima rainha, com vestes mais resplendentes que o sol, envolta numa fragrância de mil perfumes. Diante de tanta beleza, a pobre senhora perdeu as forças, caiu de bruços no chão, enquanto a comida para seu marido, guardada na sacola, continuava intacta. Então a belíssima mulher, segurando-a pelo braço direito, levantou-a do chão e lhe disse: “Eu sou a Virgem Maria, a Mãe de Cristo morto na cruz para a salvação dos homens. Peço-te que vás dizer em meu nome ao povo de Vicenza que construa neste lugar uma igreja em minha homenagem, se quiser recobrar sua saúde; do contrário, a peste não cessará”. Vincenza, então, chorando de alegria e ajoelhada diante de Nossa Senhora, respondeu: “Mas o povo não acreditará em mim. E onde, ó Mãe gloriosa, poderemos encontrar dinheiro para fazer estas coisas?”. “Insistirás para que esse povo execute a minha vontade, do contrário nunca será libertado da peste; e, enquanto não obedecer, verá meu filho irado contra ele”, res­pondeu Nossa Senhora. E continuou: “Para provar o que digo, que eles escavem aqui, e da rocha maciça e árida jorrará água; e, assim que se iniciar a construção, não faltará dinheiro”. Assim falando, marcou no chão com um raminho de oliveira em forma de cruz o lugar e até mesmo a forma da igreja que deveria ser construída. Enfiou depois o raminho na terra, exatamente no local em que hoje está o altar-mor do santuário. Mas ainda não havia terminado: “Todos aqueles que visitarem esta igreja com devoção em minhas festas e em todo primeiro domingo do mês terão como dom a abundância das graças e da misericórdia de Deus e a bênção de mi­nha própria mão materna”. 
À alegria indizível do encontro com a Virgem se alternava no coração de Vincenza Pasini o pavor de ter de enfrentar sua cidade. Assim que desceu a Vicenza e contou tudo aquilo a todos que encontrava, a mulher logo se deu conta de que ninguém acreditava nela. Mesmo porque, com todas aquelas pessoas mortas pela peste, o povo tinham outras coisas em que pensar. Foi também falar com o bispo, Pietro Emiliani. E foi pior do que andar no escuro. O alto prelado a deixou falar algum tempo, depois a despediu num instante, considerando-a uma pessoa sem juízo. Enquanto isso, a terrível epidemia continuava a piorar cada vez mais. E Vincenza retomou sua vida de sempre, trabalhando, rezando e fazendo obras de caridade. E, nos dias de festa, subindo ao monte para rezar bem onde havia encontrado Nossa Senhora. 
O documento que reúne todos os passos da investigação conta ainda que, dali a dois anos, houve outra aparição da Virgem a Vincenza Pasini: era 1º de agosto de 1428. Movida mais uma vez por piedade para com uma cidade que já havia chegado ao seu limite, Nossa Senhora repetiu as mesmas palavras, fazendo a mesma solicitação e a mesma promessa à senhora idosa. Depois de descer à cidade, e de berrar a vontade da Mãe celeste na cara de todo o mundo, pessoas comuns e autoridades da cidade, desta vez Vincenza foi ouvida. A notícia de que Nossa Senhora havia aparecido no monte uma segunda vez se espalhou pela cidade num instante e muita gente começou a ultrapassar as muralhas de Vicenza para subir à colina. Nessa altura, o prefeito, o Conselho dos Cem e o Conselho dos Quinhentos, reunidos na grande Sala da Razão, decidiram construir, o mais rápido possível, a igreja no Monte Berico. Informa ainda oCódice: “Tomada a decisão, e confiando apenas na esperança em Deus e na recomendação da Virgem gloriosa, a construção da igreja foi iniciada em 25 de agosto do mesmo ano de 1428”. Apenas vinte e quatro dias depois da segunda aparição. 
Nossa Senhora falara a Vincenza de uma fonte de água que brotaria da rocha maciça no lugar em que se deveria erguer o santuário. E assim aconteceu: durante os traba­lhos de escavação e desaterro, “jorrou como fonte uma maravilhosa e incrível quantidade de água [...], a ponto de transbordar naquele lugar como que um rio abundante, que, fazendo muito barulho, descia pelo monte”, informa mais uma vez o nosso Códice. Além disso, segundo a outra promessa da Virgem, o dinheiro também apareceu em grande quantidade: no Arquivo de Estado de Veneza, padre Giocondo Maria Todescato encontrou e publicou uma série de testamentos, com diferentes datas e os nomes de cada testador, mostrando como foi grande a generosidade dos habitantes de Vicenza para a construção do santuário. Para esclarecer o que aconteceu em seguida, outro precioso documento, de 15 de ju­lho de 1434, vem em nosso socorro: é a transcrição de uma lápide de mármore já destruída, cujo texto foi conservado na Biblioteca Bertoliana: “Iniciada a construção em 25 de agosto, a grande peste desapareceu parcialmente, e, completada a igreja depois de três meses, toda a província foi libertada completamente de uma série de calamidades, de forma que, a partir desse dia, com a ajuda de Deus, ninguém mais sofreu dessa doença”. O documento é também de grande importância porque revela que esses fatos milagrosos se verificaram sob o pontificado de Eugênio IV, enquanto Francesco Foscari era doge de Veneza. 

A igreja do santuário
A igreja do santuário
Mater misericordiae e Nossa Senhora do Magnificat 
Por quem e como foi edificada a igreja do Monte Berico, os documentos não indicam. Tudo o que se sabe, levando em conta o pouco que restou intacto até hoje dentro da Basílica barroca, é que foi uma simples igreja de esquema basilical edificada entre agosto e final de novembro de 1428. Por sorte, a imagem de Nossa Senhora, que hoje se encontra sobre o altar-mor, encostada à parede meridional da Basílica, única remanescente do antigo templo gótico, é a mesma que foi exposta na igreja em 1428. O Códice a descreve como “imperiosa imagem de mármore [...] pintada com arte de várias e preciosas cores”. A belíssima estátua em pedra macia das colinas Berici, que a tradição atribui a Nicolau de Veneza, tem um metro e setenta de altura e segue o esquema clássico daMater misericordiae. Está de pé, em posição frontal, e seu rosto, aberto ao sorriso, é emoldurado por cabelos encaracolados que o véu adornado de ouro ressalta. Seu hábito possui arabescos dourados e, dos ombros, desce um belo manto azul forrado de vermelho, com as bordas de ouro. Com as mãos, Nossa Senhora abre seu manto para acolher, ajoelhados a seus pés, quatro à direita e quatro à esquerda, os representantes do povo de Vicenza, de todas as classes sociais – dá para perceber isso pelo feitio das roupas –, que invocam a sua proteção: “Mostra-te, ó Mãe”, se lê na inscrição no pedestal da estátua. Na cabeça da Virgem existe uma coroa: em 25 de agosto de 1900, o patriarca de Veneza, cardeal Giuseppe Sarto, futuro papa Pio X, subiu à montanha para a coroação de Nossa Senhora. Depois de uma série de tentativas de furtos sacrílegos, hoje infelizmente só vemos uma cópia no lugar da coroa original – uma jóia de beleza indizível, elaborada com uma mistura de adereços de feitio popular e outros de maior valor doados a Nossa Senhora ao longo dos séculos. A coroa original se conserva num lugar secreto. 
Mas há uma outra imagem da Virgem Maria, oriunda daqueles anos, encontrada em 1932: é o afresco deNossa Senhora do Mag­nificat, de Battista de Vicenza. Atualmente se encontra na parede direita do moderno edifício dedicado às confissões, e reapareceu durante as obras para forrar de mármore o espaço que cerca a imagem de Maria mais antiga: nesse afresco, a Virgem, com vestes lilases recobertas pelo manto azul, está sentada sobre uma preciosa cadeira de mármore e é representada como se já estivesse próxima do momento de dar à luz; certamente, é uma pintura votiva, encomendada para propiciar um nascimento. 

Os Servos de Maria tomam posse do santuário de Nossa Senhora do Monte Berico 
Vicenza, já salva da peste e com seu santuário no topo da montanha, tornou-se meta constante de gente proveniente de todas as outras cidades vênetas. O Códice 1430 assinala que uma infinidade de milagres caíram como chuva sobre os peregrinos, os quais, sobretudo no primeiro domingo do mês, segundo a promessa de Nossa Senhora, enchiam a igrejinha. No intervalo de tempo que vai da segunda aparição da Virgem Maria até o início do Processus instruído pelas autoridades da cidade sobre os acontecimentos do Monte Berico, morreu Vincenza Pasini. Transformada em objeto de veneração popular, a pia senhora foi sepultada na igreja de Todos os Santos, na encosta do monte; seus ossos foram transferidos para o santuário em 1810, depois da demolição da igreja de Todos os Santos. Hoje se encontram numa urna de mármore branco na cripta da Basílica. 
E no meio de todos esses acontecimentos que arrastaram beneficamente o povo ao monte, foi necessário também construir um convento e, conseqüentemente, chamar uma ordem religiosa que pudesse assistir espiritualmente a toda aquela gente: os primeiros a chegar, no final de 1429, foram os frades da Ordem de Santa Brígida. Depois cederam seu lugar, por vontade do município de Vicenza, do novo bispo, Francesco Malipiero, e do papa Eugênio IV, aos Servos de Maria, que tomaram posse do santuário e do convento em 31 de maio de 1435. Esses frades logo se tornaram extremamente estimados pelo povo, mesmo porque à frente deles pôs-se um santo homem: frei Antônio de Bitetto. Depois de 570 anos, os Servos ainda estão no Monte Berico. Aliás, é justamente pela importância e pela fama de santidade que logo envolveram a frei Antônio, e, conseqüentemente, ao santuário, que ao longo dos séculos foram celebrados numerosos capítulos-gerais da Ordem no Monte Berico. 

O santuário se enriquece de obras de arte 
No final do século XV, os Servos de Maria já não sabiam como gerenciar a enxurrada de pe­regrinos que se derramava sobre o monte para implorar a Nossa Senhora. Fosse verão ou fosse inverno, o povo era obrigado a assistir à missa a céu aberto. Os frades, porém, não queriam saber de fazer reformas na igrejinha, para não comprometer sua estrutura, sugerida diretamente por Nossa Senhora. Só entre 1450 e 1454, quando já se percebiam problemas de ordem pública no santuário, em razão da grande afluência, é que se realizaram ampliações. Nisso, o salão principal original da igreja foi prolongado para oeste. Em seguida, o espaço interno foi articulado em três naves. Com o passar dos anos, construiu-se ainda um coro para os frades, definiu-se a fachada da igreja e se edificou uma hospedaria para os peregrinos, bem no lugar em que hoje aparece o novo convento edificado em 1954. Artistas importantes foram chamados para adornar o santuário e todos os outros ambientes. Se dermos uma olhada na atual sacristia, por exemplo, poderemos admirar a extraordinária Pietà de Bartolomeo Montagna, afresco pintado pelo artista em 1500, ao lado de outra Pietà que se pôs sobre o altar à direita do altar-mor, dentro da Basílica. Mas a obra pictórica mais preciosa de todo o santuário se destaca na parte oriental do antigo refeitório, hoje usado como pinacoteca: trata-se do Banquete de São Gregório Magno, de Paolo Veronese. O grande artista a pintou propositalmente para esse espaço em 1572, por encomenda de seu tio por parte de mãe, frei Damiano Grana, prior do santuário entre 1571 e 1573, retratado pelo sobrinho quase no centro da cena. A obra-prima de Veronese acabaria por sofrer uma série impressionante de ataques. O último deles foi dos austríacos, que, durante a Primeira Guerra de Independência, saquearam o convento e dilaceraram a tela a golpes de baioneta, reduzindo-a a trinta e dois pedaços. Além de Veronese, na segunda metade do século XVI foi chamado ao santuário de Nossa Senhora do Monte Berico Andrea Palladio, o maior arquiteto do Renascimento, para elaborar projetos de ampliação da igreja. 
Infelizmente não há mais vestígios do famoso “acréscimo palladiano”, que, partindo da antiga parede meridional, prolongou a Basílica para o norte, concluindo-a com a fachada relativa. A demolição aconteceu quando, no final do século XVII, os Servos de Maria, recorrendo à generosidade dos cidadãos para “que se terminasse e aperfeiçoasse” a fachada principal palladiana, ao norte, à qual era preciso acrescentar um “pequeno pórtico para comodidade dos passantes”, obtiveram dos maiorais da cidade uma resposta superior a suas expectativas. Com a cláusula, porém, de que se tirasse do caminho o “prolongamento” de Andrea Palladio e se reconstruísse a igreja desde o princípio, mantendo, obviamente, apenas a parede meridional, ou seja, a parede antiga na qual estava posicionada a imagem de Nossa Senhora. Para dirigir os trabalhos, chamou-se Carlo Borella, titular da maior empresa de edificações de Vicenza, que realizou o complexo edifício barroco que vemos hoje. E quem povoou tanto o exterior quanto o interior da igreja de um número impressionante de estátuas foi, na virada entre os séculos XVII e XVIII, o escultor Orazio Marinali. Por meio de três baixos-relevos externos, postos sobre as três portas de acesso ao templo, ele sintetizou em três “atos” o episódio milagroso do qual se origina o santuário. Um santuário que, tendo começado simples e humilde, não parou de inchar ao longo dos anos: em 1707, frei Ferdinando Gabrieli, que fora alguns anos antes prior do convento, decidiu, usando de seus próprios recursos, reformar um ambiente que ficava em cima do refeitório e que hoje corresponde ao museu do santuário. É a Sala dos Consultores, que guarda, numa de suas divisões, os retratos dos sete teólogos servitas nomeados, em épocas diferentes, consultores da República Vêneta, além dos bustos que retratam alguns dos superiores-gerais da Ordem entre 1653 e 1716. A Sala conserva também os mais de 150 ex-votos recolhidos ao longo dos séculos de vida do santuário: feitos tanto de madeira quanto em tela, eles contam, num estilo simples e um pouco naïf, uma série impressionante de trágicas quedas de cavalo, de janelas, dentro do lago ou de um rio. Sem contar as agressões, os incidentes, as deficiências congênitas e as doenças de risco. Enfim, uma maré de acidentes, sempre resolvidos pela intercessão maternal da Virgem Maria. Talvez seja esse um dos lugares mais comoventes e mais belos de todo o santuário. 
Fachada oeste: à igreja barroca está apoiada a fachada da igreja tardo-gótica, em memória do antigo santuário do Monte Berico. Foi restaurada no biênio de 1860-1861 pelo arquiteto Giovanni Miglioranza: só o florão central escapou da reforma neogótica. A fachada barroca, por sua vez, apresenta um dos três baixos-relevos de Orazio Marinali postos sobre as portas de acesso da igreja: aqui é comemorada a deposição da primeira pedra do santuário primitivo
Fachada oeste: à igreja barroca está apoiada a fachada da igreja tardo-gótica, em memória do antigo santuário do Monte Berico. Foi restaurada no biênio de 1860-1861 pelo arquiteto Giovanni Miglioranza: só o florão central escapou da reforma neogótica. A fachada barroca, por sua vez, apresenta um dos três baixos-relevos de Orazio Marinali postos sobre as portas de acesso da igreja: aqui é comemorada a deposição da primeira pedra do santuário primitivo
Depois de quatro séculos de amorosa acolhida dos peregrinos, especialmente os mais pobres, e de grandiosas obras de decoração do santuário solicitadas por esses religiosos incansáveis, os Servos de Maria, obedecendo a um decreto de 11 de maio de 1810, tiveram de deixar do santuário. Napoleão suprimiu todas as Ordens e Congregações da Itália, obrigando-as a depor o hábito, e ordenou aos religiosos regulares, que não fossem de Vicenza, que voltassem a seus vilarejos e cidades de origem. A igreja do santuário de Nossa Senhora de Monte Berico se tornou uma capela subsidiária da paróquia da cidadezinha de São Silvestre. Na realidade, graças aos bispo de Vicenza, Zaguri, dois padres dos Servos prosseguiram em seu trabalho no Monte Berico. Todos os outros só voltariam depois de 25 de novembro de 1835, por iniciativa do bispo Giuseppe Cappellari e com o aval do imperador da Áustria. 
Mas, apesar das férias forçadas dos Servos de Maria, os dois padres que ficaram no convento continuaram a fazer mudanças no santuário: o novo campanário, a substituição do altar-mor do século XVI, a elevação da imagem de Nossa Senhora até um nicho de mármore, para favorecer a visibilidade. Até o altar foi trazido mais para a frente, de modo a permitir aos peregrinos que paras­sem no lugar em que Nossa Senhora havia aparecido a Vincenza Pasini: a cena está fixada num medalhão de prata, aos pés da estátua, sustentado por dois anjos de mármore. É costume que os pe­regrinos, no momento de pedir a graça a Maria, apóiem a cabeça no medalhão de prata, para estabelecer com Nossa Senhora uma relação direta, sensível. 

1917: Nossa Senhora do Monte Berico salva mais uma vez a cidade de Vicenza 
Há um outro dia crucial, além do primeiro domingo de cada mês, em que Nossa Senhora do Monte Berico se mostra particularmente bem disposta para com os peregrinos. É o dia 8 de setembro, festa de seu Nascimento. Existe um motivo particular, que nos remete à época da Primeira Guerra Mundial. Em 25 de fevereiro de 1917, a cidade de Vicenza, retaguarda imediata do conflito que se espalhava a poucas dezenas de quilômetros, pronunciava um voto solene a Nossa Senhora do Monte Berico, no qual dizia que, “se nossas terras se conservarem incólumes, nós vos prometemos santificar perpetuamente o dia de Vossa Natividade, tendo-o como sagrado e festivo”. Desde então, o dia 8 de setembro é festa municipal, pois, nessa ocasião também, Nossa Senhora respondeu à oração dos habitantes de Vicenza, não permitindo que o fogo da guerra chegasse a destruir a cidade. Ao longo daquele mesmo ano de 1917, o Boletim dos Servos de Maria dera amplo destaque à carta apostólica de Bento XV, que desejava o encerramento imediato do espantoso conflito; a atitude do santuário, por isso, foi tachada de pacifismo derrotista, e o governo ordenou que os sinos silenciassem. Isso explica por que o santuário, em 1919, pouco depois de a guerra ter terminado, recebeu de presente uma gigantesca bandeira italiana, confeccionada por 100 mil mulheres católicas, em memória de todos os mortos. E explica também a passagem por Monte Berico dos restos mortais do Soldado Desco­nhecido, quando eram conduzidos de Redipúglia para Roma, o Altar da Pátria. Vem daí também a construção e denominação da praça da Vitória. Inaugurada em 23 de setembro de 1924, ela abriu de par em par um dos mais extraordinários panoramas de toda a região do Vêneto. O cume do Monte Berico, na frente do santuário, foi cortado em 17 metros para que a vasta área fosse construída: um grandioso retângulo com dois lados movimentados em curva barroca. O corte do monte abriu à vista, assim, o mais vasto panorama do histórico cinto de montanhas formado pelos Pré-Alpes, pelo Pasúbio e pelo Grappa. 
Como se ainda fosse preciso, há mais uma data importante relacionada a esse lugar tão santo: 11 de janeiro de 1978. Nesse dia, o papa Paulo VI declarou Nossa Senhora do Monte Berico a padroeira principal da cidade de Vicenza, com estas palavras: “Na Itália, na diocese de Vicenza, o clero e o povo há mais de 500 anos veneram com um culto ininterrupto e com ardor a gloriosa Mãe do Divino Redentor, sob o título de Nossa Senhora do Monte Berico. [...] Nós decretamos que a Bem-aventurada Virgem Maria, homenageada com o nome de ‘Nossa Senhora do Monte Berico’, seja declarada e seja realmente de agora em diante a principal padroeira junto a Deus da cidade e da diocese de Vicenza. Depositamos grande esperança de que neste santuário, de agora em diante, floresçam cada vez mais a devoção à Mãe de Deus, a oração freqüente e um renovado conhecimento e imitação de seu Filho”. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Santo Afonso Maria de Ligório ensina a importância do silêncio



1. O silêncio é um meio excelente para se alcançar o espírito da oração e para se habilitar para o trato ininterrupto com Deus. Dificilmente se encontrará uma pessoa verdadeiramente piedosa que fale muito.
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Todos que possuem o espírito de oração amam igualmente o silêncio, que é justamente chamado o conservador da inocência, um baluarte contra as tentações e uma fonte de oração, pois que o silêncio favorece o recolhimento e excita no coração bons pensamentos: ele obriga de certo modo a alma a pensar em Deus e nos bens celestes, como diz S. Bernardo (Ep. 78).
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Por essa razão todos os santos e mesmo aqueles que não viveram como anacoretas eram especiais amantes do silêncio.
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O profeta Isaías diz: “O silêncio cultivará na alma a justiça” (Is 32, 17). De um lado ele nos preserva de muitos pecados, removendo a ocasião de altercações, de difamações, rancor e curiosidade; de outro lado, nos auxilia a adquirir muitas virtudes.
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Como não se pratica admiravelmente a humildade quando se ouve modestamente e se guarda o silêncio, enquanto falam os outros; a mortificação, quando, desejando-se narrar algum episódio ou dizer algum chiste se abstém disso, calando-se; a mansidão, quando nada se responde sendo-se injustamente repreendido ou injuriado!
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O muito falar, pelo contrário, traz consigo muitos danos. Como se conserva a devoção pelo silêncio, assim também se perde pelo muito falar. Por mais que se esteja recolhido durante a oração, se depois não se vencer no falar, estar-se-á logo distraído como se não tivesse feito oração. Abrindo-se a tampa de uma estufa, o calor se evapora em curto prazo.
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“Evita o muito falar, admoesta S. Doroteu” (Doct. 24). É fora de dúvida que uma pessoa que fala muito com os homens pouco se entretém com Deus, e que Deus, por sua parte, pouco fala com ela; segundo suas próprias palavras, ele conduz a alma à solidão quando lhe quer dirigir a palavra: “Eu a conduzirei à solidão e lhe falarei ao coração” (Os 2, 14).
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Além disso, nos admoesta o Espírito Santo (Prov 10, 19): “No muito falar não faltará pecado”. Ainda que durante a conversação que se protrai sem necessidade, não se pense que se está cometendo falta, contudo, depois, em um sério exame de consciência, se descobrirá qualquer falta, quer por indiscrição, ou por curiosidade, ou, ao menos, por inútil tagarelice.
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Mas, que digo eu? Não é só de uma ou outra falta que nos tornamos culpados, quando falamos muito, mas de grande número delas. Segundo S. Tiago (Tg 3, 6) é a língua “um mundo de injustiças”; pois, como nota um sábio escritor, o maior número de pecados é ocasionado pelo falar ou pelo ouvir falar.
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Ah! quantas almas não se acharão, no dia do juízo, ente os condenados porque não guardaram sua língua! O pior é que aquele que se entrega à distração pelo intenso trato com as criaturas e pelo muito falar, não conhece suas faltas e, por isso, cai sempre mais profundamente. “O homem que fala muito, diz o salmista (Prov 139, 12), não será dirigido na terra”, e seguirá por mil desvios, sem que se possa esperar a sua emenda.
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Parece que alguns não podem viver sem prosear desde a manhã até à tarde: querem saber tudo o que acontece, incomodam-se com tudo e ainda perguntam que mal fazem com isso. A esses respondo: Deixai de falar tanto, procurai recolher-vos um pouco e conhecereis quantas faltas cometestes com vosso imoderado prosear.
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“Quem guarda a sua boca, guarda a sua alma”, diz o Sábio (Prov 13, 3). E São Tiago escreve:“Quem não peca por palavra é um homem perfeito” (Tg 3, 2).
Quem, por amor de Deus, pratica o silêncio, fará também com diligência a leitura espiritual, a meditação e a visita ao Santíssimo Sacramento. Oh! quanto ama Deus a uma alma que observa o silêncio!
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Principalmente se se mortifica no falar naquelas ocasiões em que sente um desejo especial para falar, por exemplo, depois de um longo retiro, em acontecimentos agradáveis ou desagradáveis.
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Quem costuma, porém, se difundir em conversas estará continuamente distraído e deixará facilmente a oração, a meditação e outros exercícios de devoção e perderá assim, pouco a pouco, o gosto por Deus e pelas coisas divinas.
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É impossível que aquele que não ama o silêncio, diz S. Maria Madalena de Pazzi, ache gosto nas coisas divinas; ele se lançará, mais cedo ou mais tarde, nos braços das alegrias mundanas.
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2. Contudo, a virtude do silêncio não consiste em nunca se abrir a boca para uma conversa, mas em se calar quando não há motivo razoável para se falar. Por isso diz Salomão (Ecle 3, 7): “Há tempo para se calar e tempo para falar”. Nota S. Gregório de Nissa que se fala primeiramente do tempo de se calar, porque pelo silêncio é que se aprende a arte de falar bem.
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Quando, pois, se deverá calar e quando deverá falar um cristão que deseja santificar-se? Ele deve calar-se quando não for necessário falar, e deve falar quando a necessidade ou a caridade o exigir.
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S. Crisóstomo (In ps. 140) estabelece a seguinte regra: “Só quando o falar for mais proveitoso que o calar-se é que se deve falar”. Com isso se harmoniza o conselho dado pelos mestres espirituais: “Cala-te ou fala de tal modo que o falar seja preferível ao silêncio”. S. Arsênio confessou que se arrependeu muitas vezes de ter falado e nunca de ter guardado o silêncio. Por isso S. Efrém aconselha a cada cristão:
“Fala muito com Deus e pouco com os homens” (Encom, in ps.).
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Pelo que farias muito bem, alma cristã, se guardasses o silêncio em certas e determinadas horas do dia e, para não encontrares ocasião de falar, te retirasses, durante esse tempo, para um lugar solitário. Se a obediência ou a caridade não to permitir, procura ao menos achar alguns momentos livres para te recolheres e reparares as faltas que cometeste em tuas conversações, pois o Sábio diz (Eclo 14, 14):
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“Não deixes passar uma partezinha do bem que te é concedido”. Se não puderes empregar para o Senhor mais tempo, consagra-lhe ao menos os curtos instantes que te estão à disposição e procura cortar toda conversação inútil sob qualquer oportuno pretexto.
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Se alguma vez em tua presença se pronunciar alguma palavra indecente, foge então sem demora ou, ao menos, abaixa os olhos e não dês resposta ou então dirige a conversa para outro assunto. Conversas mundanas deves procurar cortá-las quanto antes. S. Francisca Romana recebeu certa vez uma bofetada de seu anjo da guarda porque não deu outra direção a uma conversa de algumas senhoras que falavam sobre coisas fúteis.
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Para não faltares neste ponto, deves, antes de tudo, mortificar a tua curiosidade. O Abade João costumava dizer: Quem quiser refrear sua língua, deve tapar seus ouvidos, reprimindo o desejo de saber novidades.
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3. Se estiveres obrigada a falar, alma cristã, pondera bem primeiramente o que queres dizer: “Coloca tuas palavras na balança” (Eclo 28, 29), te diz o Espírito Santo.
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S. Bernardo diz que as palavras deveriam passar duas vezes pelo crivo da apuração antes de chegarem à língua, para que não se diga o que não é útil declarar. S. Francisco de Sales exprime o mesmo pensamento com outras palavras: “Para não se faltar, na conversa, se deveria ter a boca como que abotoada, para que se pudesse refletir, enquanto se desabotoasse, no que vai se falar”.
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Antes de falar deves, pois, ponderar:

1º. o que queres dizer - 
se, por exemplo, com isso não ofendes a caridade, a modéstia ou qualquer outro mandamento de Deus;
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2º. com que intenção falas - algumas vezes se diz alguma coisa boa, mas com má intenção, para se aparecer virtuoso ou então espirituoso;
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3º. com quem falas – se com um superior, ou com um igual, ou inferior; se na presença de adultos ou de crianças, que talvez poderiam escandalizar-se com tuas palavras;
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4º. como deves falar - pois é teu dever falar com simplicidade cristã, sem afetação; com humildade, evitando toda a expressão orgulhosa ou vaidosa; com mansidão, sem mostrar impaciência ou ofender o próximo; com discrição, sem querer ter sempre a primeira palavra, principalmente se fores mais moço que os outros; com modéstia, evitando interromper os demais.
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Além disso, deves falar com voz moderada e evitar todas as expressões e gestos que são próprios de um mundano. Finalmente, deves te abster de rir imoderadamente, pois isso de forma alguma está bem a uma pessoa que deseja viver piedosamente, como nota S. Basílio.
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Um riso moderado, porém, que denota a alegria do coração, não é nem contra a civilidade nem contra a piedade.
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Modéstia e alegria é o que deve luzir no procedimento de um bom cristão, e não melancolia e desalento, pois isso desonra a piedade e induz a crer que uma vida dedicada a Deus ocasiona, em vez de paz e alegria, unicamente tristeza e tribulações. 

Santo Afonso Maria de LIGÓRIO. Escola da Perfeição Cristã. Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, pelo Pe. Saint-Omer, C. SS. R. Petrópolis (s. e.), 1955, p.256-259.

AS CINCO ESPÉCIES DE GULA - Santo Tomás de Aquino



O PECADO DE GULA 


AS CINCO ESPÉCIES DE GULA
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, II-II, q.148, a.4)

São Gregório diz: "O vício da gula nos tenta de cinco maneiras: às vezes, adiantamos a hora de comer, antecipando a necessidade; outras vezes, buscamos pratos mais refinados; outras vezes, desejamos alimentos preparados com mais esmero; outras ainda, exageramos na quantidade da comida; outras vezes, enfim, pecamos pela própria voracidade de um apetite sem limite". Todos esses modos ele resume assim: "apressadamente, refinadamente, excessivamente, avidamente, meticulosamente".

"A gula implica um desordenado desejo para comer. Ora, no comer duas coisas devem ser consideradas: o alimento que se come e a ação de comer. Daí os dois modos de entender essa concupiscência desordenada. Primeiro, quanto ao alimento que comemos. Assim, quanto à substância ou a espécie de comida, há quem procure alimentos refinados, isto é, caros; quanto à qualidade, há quem busque alimentos acuradamente preparados, isto é, meticulosamente; e quanto à quantidade, há os que exageram, comendo em excesso. Em segundo lugar, considera-se a desordem da concupiscência, quanto ao ato de comer, ou por antecipar o tempo próprio para isso, isto é, apressadamente; ou por não observar a maneira conveniente de comer, isto é, avidamente. Isidoro, por sua vez, une as duas circunstâncias numa só, dizendo que o guloso se excede "na substância, na quantidade, no modo e no tempo" ".


OS DOZE DEGRAUS DA HUMILDADE - Santo Tomás de Aquino








HUMILDADE



OS DOZE DEGRAUS DA HUMILDADE - Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, II-II, q.161, a.6)


A Regra de São Bento estabelece doze degraus:


1) "ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior";
2) "falar pouco e sensatamente, em voz baixa";
3) "não ser de riso pronto e fácil";
4) "manter-se calado, enquanto não for interrogado";
5) "observar o que prescreve a regra comum do mosteiro";
6) "reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos";
7) "julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo";
8) "confessar os próprios pecados";
9) "por obediência, suportar, pacientemente, o que é duro e difícil";
10) "submeter-se, obedientemente, aos superiores";
11) "não se comprazer na vontade própria";
12) "temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou";"A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se superestime. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, atos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata" (Ecl XIX, 26), diz a Escritura.


Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o décimo segundo: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou".


Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).


Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).


Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às ações, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como , por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º)" (resp.).



AS CINCO QUALIDADES REQUERIDAS PARA TODAS AS ORAÇÕES - S. TOMÁS DE AQUINO






“O PAI NOSSO E A AVE MARIA”

SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO

PRÓLOGO

AS CINCO QUALIDADES REQUERIDAS PARA TODAS AS ORAÇÕES

1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência, pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.


2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia e achar a graça para sermos socorridos no tempo oportuno.


A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé e sem hesitação.


Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras de nosso advogado».


A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os pecados veniais.

3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer, devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir».


Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque pediste mal», diz São Tiago. (4,3).


É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.

Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos ensinou o que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor, ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).

Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».


4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio desejo que a prece interpreta.

A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor (Mt, 6,33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto — o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo.

Na Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem: primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.


5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.

A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma é saciada como de fino manjar.

A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6,7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar, se vossa atenção continua fervorosa».

Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.

6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.

Para mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai nosso», e empurrados pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»


7. — Em quinto lugar, nossa oração deve ser humilde, segundo o que diz o Salmista (Sl. 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes.


Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes dos mansos.

Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está naquele que não confia em suas próprias forças, mas tudo espera do poder divino.

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