sábado, 8 de abril de 2017

Devoção de Santo Afonso Maria de Ligório à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo


Devoção de Santo Afonso à Paixão de Jesus Cristo.

Mihi autem absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Iesu 
Christi – “Quanto a mim, livre-me Deus de me gloriar, a não
 ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal. 6, 14).

Sumário. Com muita razão a Igreja chama Santo Afonso
contemplador assíduo e propagador
 admirável da devoção à paixão e morte de Jesus Cristo. Foi este o assunto quase contínuo 
de suas meditações, de seus colóquios públicos e particulares. Se queremos ser devotos 
verdadeiros e dignos filhos do santo Doutor, sejamos, à sua imitação, devotos da Paixão de 
Jesus, façamos dela em todas as circunstâncias o assunto habitual de nossas meditações.

I. Com muita razão a Igreja (1) chama Santo Afonso contemplador assíduo e propagador 
admirável da devoção à paixão e morte de Jesus Cristo. Foi este o assunto mais freqüente,
 ou antes contínuo, de suas meditações; não deixava passar um dia sem percorrer as estações 
da Via sacra, e a cada instante lançava um olhar sobre o Crucifixo que tinha no seu quarto,
 acompanhando o olhar de alguma oração jaculatória de amor. – As suas mortificações e 
penitências eram sempre mais rigorosas nas sextas-feiras do ano; mas aumentava-as quase 
até ao excesso na Semana Santa, especialmente nos três últimos dias da mesma. Então via-se
 Afonso silencioso, pálido e triste, como que fora de si e absorto, na contemplação dos
 mistérios dolorosos da Paixão do Senhor, da qual a Igreja faz então comemoração especial.

Para desafogar os afetos de sua devoção e excitá-los também no coração de outros, o Santo
 falava muitas vezes desta devoção em seus colóquios privados; ensinava-a ao povo em 
quase todas as suas prédicas, e compôs diversas obras para transfundir à alma de seus 
leitores as puras chamas de seu amor. – Mais, não contente com isso, quis que todos os 
pregadores da sua diocese e especialmente os membros de sua Congregação, nunca
 deixassem de inculcar ao povo a meditação dos sofrimentos de Jesus Cristo.
“Nas missões”, dizia o Santo, “são muito úteis os sermões sobre o juízo e o inferno, 
porque incutem o temor; mas as conversões que provém do temor, são pouco duráveis. 
Ao contrário, as conversões por meio do amor a Jesus crucificado, são mais fortes e 
constantes. Quem se afeiçoa a Jesus crucificado, não tem mais medo.”

Numa palavra, foi tão grande em Afonso a devoção à Paixão, que não querendo, à imitação
 do Apóstolo, saber coisa alguma senão a Jesus crucificado, bem podia dizer com o mesmo 
São Paulo: Mihi autem absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi – 
Quanto a mim, livre-me Deus de gloriar-me, a não ser na cruz de 
nosso Senhor Jesus Cristo”. Felizes de nós, se soubermos imitá-lo!

II. O fruto a tirar de nossa consideração, nos é indicado pelo próprio Santo Afonso, 
quando diz: “Todas as meditações são boas, mas a que se faz sobre a Paixão de Jesus Cristo
 é a mais útil. Por isso recomendo-vos que a façais cada dia, ao menos um quarto de hora. 
Mas não vos detenhais tão somente na superfície; penetrai na humildade, na mortificação 
e nas penas do Redentor. Fazei com que esta meditação vos seja familiar; e quando virdes 
cordas, espinhos, cravos, lembrai-vos logo do que Jesus Cristo sofreu na sua dolorosa Paixão;
 quando virdes uns cordeiros serem levados ao matadouro, pensai, como fazia São Francisco
 de Assis, que é assim que o inocente Jesus foi conduzido à morte.

“Cada um procure ter uma bela imagem do Crucificado, suspenda-a no seu quarto e lance 
sobre ela de vez em quando um olhar, dizendo: Ah, meu Jesus, Vós morrestes por mim 
e eu não Vos amo! Se alguém sofresse por um amigo injúrias, golpes e cadeias, ser-lhe-ia 
muito agradável se o amigo disso se lembrasse e falasse. Assim também agrada muito a
 Jesus, que nós freqüentemente pensemos na sua Paixão. Oh, que consolação nos darão 
na morte as dores e a morte de Jesus Cristo, se em vida tivermos a miúde e com amor
 meditado nelas!

“Quem é devoto da Paixão do Senhor, não deixará de sê-lo também das dores de Maria, 
cuja lembrança nos consolará muito no momento da morte. Oh, que bela meditação,
 meditar em Jesus Cristo crucificado! Que bela morte, morrer abraçado com Jesus 
crucificado; morrer de boa vontade por amor de um Deus que morreu por nosso amor.” (2) 
– Senhor, prometo-Vos que quero seguir os ensinamentos e os exemplos de Santo Afonso;
 e Vós, pelo amor deste grande Santo, dai-me a graça de Vos ser fiel. – Esta mesma graça
peço-a a vós, 
óh grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: 
Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes 
inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 136-139.)

----------
1. Lect. Brev.
2. Passim.






Nenhum comentário:

AddThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...